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  • 22/05/2007
  • MéDICOS SUSPENDEM CIRURGIA DE URGêNCIA NO WALFREDO
  • O Hospital Walfredo Gurgel está sem cirurgião geral. Ontem pela manhã, nenhuma cirurgia foi realizada e não havia nenhum médico dessa especialidade no hospital. Nem mesmo para casos de urgência havia cirurgião geral. Os médicos resolveram cruzar os braços, depois que cumpriram a escala definida até o último dia 16. Os cirurgiões alegam que a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) não pagou as horas extras desde janeiro deste ano e não cumpriu o acordo feito em março, que definia uma escala de plantões eventuais.

    De acordo com o presidente da Associação Médica do Rio Grande do Norte,swiss replica watches Geraldo Ferreira, os cirurgiões gerais resolveram não elaborar outra escala de plantão, para a segunda quinzena de maio, relativa ao período de 17 a 31 desse mês. “Não é uma greve ou paralisação. Os médicos trabalharam o que tinha sido combinado. Apenas não irão continuar com outra escala, que deveria ser definida”, disse.

    Para Geraldo Ferreira o problema é que o Governo do Estado não pagou as horas extras, nem cumpriu com o acordo firmado em março, de remunerar os profissionais através da coordenadoria médica. “Em março os médicos trabalharam 15 dias em função desse pagamento de horas extras, tanto de março, quanto dos outros meses”, disse. Segundo ele, já são mais de R$180 mil de horas extras não pagas aos cirurgiões, por plantões eventuais, fora da escala de plantão de 20 ou 40 horas, especificado no contrato do profissional.

    Geraldo Ferreira explicou que as horas extras referentes a janeiro, fevereiro, abril e maio, devem ser pagas diretamente no contra-cheque do médico. “Em março o pagamento deveria ser feito através da coordenadoria médica, conforme acordado com a secretaria”, disse o presidente da Associação Médica.

    O cirurgião geral Paulo Anacletino Pereira Filho, disse que ele e os colegas só voltam às escalas de plantão, quando tudo for pago. “Não acreditamos mais na conversa. O coordenador de hospitais da Sesap, que é também diretor do Walfredo, José Renato, pediu que esperássemos até o dia 15 de maio, por um pagamento que deveria ter saído no início do mês. Esperamos e eles não pagaram”, disse. Agora segundo ele, o Hospital vai ficar descoberto até que os plantões eventuais sejam pagos.

    “Não há nenhum cirurgião geral no hospital. Nem para urgências, nem para cirurgias eletivas”, afirmou o cirurgião geral João Bosco Figueiredo. Para ele, a Sesap quer cortar custos, sem se preocupar com os efeitos disso no atendimento à população. Os médicos também reclamam do número restrito de cirurgiões gerais no hospital. O Walfredo Gurgel tem 27 cirurgiões gerais, quando o número ideal seria no mínimo 40. “Isso sobrecarrega os profissionais, que são obrigados a dar plantões eventuais. Não vamos mais aceitar isso”, disse João Bosco.

    Médicos falam sobre situação crítica no HWG

    A equipe da TRIBUNA DO NORTE esteve no Hospital Walfredo Gurgel ontem pela manhã e constatou que não havia nenhum cirurgião geral de plantão. De acordo com o clínico geral Luiz Quaresma, a situação é complicada porque se houver uma urgência poli-traumática, não haverá médico especializado para acompanhar o paciente. “No domingo chegou um paciente com uma facada no tórax. Ele está estabilizado, mas em estado grave, precisando de uma cirurgia”, disse. De acordo com o médico se algum caso de urgência chegar ao hospital, o paciente terá que ser estabilizado e transferido para o Hospital Regional de Parnamirim ou para o Hospital Santa Catarina.

    O médico intensivista Sebastião Paulino também confirmou que ontem de manhã não havia nenhum cirurgião geral de plantão no Walfredo Gurgel. De acordo com ele, a situação ainda não chegou ao extremo, mas pode piorar. “Não se concebe um hospital de urgência sem cirurgião geral. Teríamos que enviar os pacientes para Parnamirim ou para o Santa Catarina”, afirmou.

    Sesap não se pronuncia sobre crise no Walfredo Gurgel

    A TRIBUNA DO NORTE tentou falar ontem com o coordenador de hospitais da Sesap e diretor-geral do HWG, José Renato. A entrevista estava marcada para às 16h30, no prédio onde funciona a Secretaria, na avenida Deodoro da Fonseca. Mas o encontro não aconteceu porque o diretor já não estava no local.

    A informação passada pela assessoria de imprensa da Sesap foi de que José Renato estava na Procuradoria Geral do Estado, e que já estava saindo de lá para o Conselho Regional de Medicina. Segundo a assessoria, o diretor do HWG só se pronunciaria após uma reunião marcada para ontem à noite, com os cirurgiões-gerais. Quanto ao não pagamento dos hospitais privados que atendem pelo SUS, os assessores disseram que, segundo o secretário Adelmaro Cavalcanti, os recursos já estavam disponibilizados e que o pagamento dependia apenas de questões burocráticas.

    Uma funcionária do Walfredo encontrou a equipe de reportagem no estacionamento do hospital e pedindo anonimato, fez duras críticas à atual direção. Segundo ela, a unidade está abandonada. “Está faltando amor e responsabilidade aqui. O hospital está um lixo”, reclamou a servidora.

    Promotora se reúne com o secretário de Saúde

    Ainda na tarde de ontem a promotora da Saúde, Iara Pinheiro, teve duas reuniões importantes. Uma com o secretário Estadual de Saúde, Adelmaro Cavalcanti, e outra com o grupo de cirurgiões-gerais que cruzaram os braços desde o último dia 16. Mas alegando cansaço, a representante do Ministério Público não quis adiantar o que foi alegado pelas duas partes.

    “Tomei conhecimento da situação hoje, oficialmente. Agora, tendo ouvido as duas partes é que poderei tomar alguma decisão sobre o que fazer”, explicou Iara Pinheiro. E somente depois de tomar uma decisão é que a promotora deve se pronunciar.

    Quanto ao problema com os repasses aos hospitais privados que atendem pelo SUS, a promotora aconselhou os diretores a entrar na justiça contra o Estado. Segundo Francisco Gomes, diretor do Hospital Memorial, o aconselhamento foi seguido e um juiz da Vara da Fazenda Pública deu cinco dias para que a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) se pronunciasse sobre o assunto. Aos diretores do hospital nada foi dito pela secretaria. Também foi difícil conseguir entrevistas com a direção do Hospital Walfredo Gurgel, assim como com o secretário Adelmaro Cavalcanti.

    Situação da rede privada também é crítica

    A situação de três hospitais privados que atendem pacientes do setor público também é crítica. Os diretores das unidades reclamam que desde o ano passado os repasses estão sendo feitos com bastante irregularidade, o que está prejudicando o funcionamento das unidades. Atualmente, quatro meses estão em atraso, de janeiro a abril.

    “Desde o ano passado o Estado vem fazendo assim. Paga um mês, atrasa dois. E agora pararam de vez”, reclamou o ortopedista Francisco Gomes, diretor do Hospital Memorial - que juntamente com o Hospital Médico Cirúrgico e o Instituto de Traumatologia e Ortopedia do RN (Itorn) - se encontra em tal situação.

    De acordo com Francisco Gomes, os pagamentos dos atendimentos públicos são feitos em duas parcelas. A primeira, é toda paga pelo Governo Federal e da segunda, 40% são bancados pela Prefeitura de Natal, enquanto os outros 60%, são responsabilidade da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap). “A dificuldade é somente na parte do Estado. O SUS e a Prefeitura pagam sempre regularmente”, disse o médico.

    Ele explica que antigamente a Secretaria Municipal pagava toda a segunda parcela aos hospitais e recebia da Estadual a diferença. Mas segundo o diretor do Memorial, a prática foi deixada de lado exatamente porque o Estado vivia atrasando o repasse. “Aí a bomba foi passada direto pra gente”, explicou o Gomes.

    O ortopedista explicou que agora a prefeitura só aceita refazer a antiga prática se o Estado fizer o pagamento de sua parte antecipado. “Mas se fosse pra pagar antecipado, poderia continuar pagando diretamente conosco”, explicou o diretor do Memorial. Segundo ele, a dívida dos quatro primeiros meses do ano, mas todos os dias de maio, gira em torno dos R$ 300 mil.

    O médico afirma que não há mais condições de atender os pacientes vindos do interior do Estado, àqueles que correspondem a 60% que a Sesap deveria pagar. “Se não recebermos até a semana que vem, teremos que suspender os atendimentos”. Francisco Gomes informa que por causa do “calote” do poder público, o Memorial está devendo a vários fornecedores e aos funcionários.

    Na manhã de ontem, um neurocirurgião do Hospital Memorial iria fazer uma cirurgia de retirada de um tumor cerebral, mas teve de cancelar o procedimento por falta de material. Segundo ele, o paciente estava piorando, tendo convulsões freqüentemente, e poderia morrer, caso a cirurgia não fosse feita. “Vou fazer agora uma outra cirurgia, de afundamento de crânio, onde vou usar a última porção de anestésico”, disse o especialista.

    Um ano ruim para a saúde

    Definitivamente, 2007 não está sendo um ano bom para a população mais carente, se for levado em conta o atendimento no maior hospital público do Estado. O Monsenhor Walfredo Gurgel está enfrentando uma crise sem precedentes, desde janeiro deste ano, quando os médicos do Estado resolveram fazer uma operação-padrão.

    Nesta ocasião, os médicos retardaram os atendimentos dos pacientes, reivindicando o pagamento dos plantões eventuais. Como não foram atendidos, os médicos partiram para uma medida drástica, e ameaçaram pedir demissão coletivamente e a principal reivindicação passou a ser a efetivação de um plano de cargo específico para eles.

    Com a continuidade do impasse, os médicos decidiram que não iam mais trabalhar nos plantões eventuais e partiram para a tática do convencimento. Apelaram para a Assembléia Legislativa e tentaram ainda uma audiência com a Governadora Wilma de Faria, isso já no mês de março. Enquanto isso, a situação no HWG continuava crítica.

    A crise só veio diminuir no dia 19 de março, após uma reunião com o chefe do Gabinete Civil, secretário Wober Júnior, quando o governo se comprometeu a desembolsar R$ 8 milhões por ano, no atendimento às reivindicações dos médicos.

    Fonte: Jornal Tribuna do Norte